Máquinas para vidro no Brasil: a evolução dos equipamentos para a indústria vidreira

15 de setembro de 2026

Empresas com origens, estratégias e perfis bastante diferentes ajudaram a formar a cadeia de fornecimento de máquinas para vidro no Brasil. Fabricantes nacionais, representantes de grandes marcas internacionais e empresas inicialmente dedicadas à manutenção de equipamentos participaram, cada uma a seu modo, da modernização da indústria brasileira de beneficiamento de vidros.

A trajetória de empresas como Agmaq, Glaston, Use-Mak e Lisec ajuda a contar uma parte importante dessa história. Ao longo das últimas décadas, o mercado passou pela expansão da fabricação nacional, pelo crescimento da presença de equipamentos europeus e asiáticos e pela incorporação progressiva de tecnologias de automação, controle e gerenciamento da produção.

O início de uma indústria brasileira de máquinas para vidro

Em meados da década de 1980, em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo, Agostinho Alves era proprietário de uma caldeiraria e já possuía fama na região pela capacidade de criar máquinas para diferentes aplicações.

Entre os equipamentos que desenvolvia estavam soluções para cortar papel, máquinas para cortar biscoitos com arame e outros equipamentos feitos de acordo com as necessidades apresentadas pelos clientes.

Na mesma época, Moreno Magon iniciava sua carreira profissional na multinacional italiana Z. Bavelloni, trabalhando inicialmente na fábrica da companhia na Itália.

Anos mais tarde, as trajetórias de Agostinho e Magon se encontrariam no mesmo mercado: o de máquinas e equipamentos para processamento de vidro.

Agmaq entra no mercado de máquinas para vidro

Agostinho começou a direcionar sua experiência para o setor vidreiro na década de 1990.

A atuação teve início principalmente com equipamentos destinados ao transporte e ao manuseio de chapas de vidro. Os primeiros pedidos envolviam produtos como carrinhos, paleteiros e mesas de corte.

À medida que os clientes apresentavam novas demandas, a empresa ampliava a complexidade dos equipamentos fabricados.

Um momento importante dessa trajetória ocorreu em 1999, quando a Agmaq participou da Glass South America com um pequeno estande de aproximadamente 32 m².

Na feira, a empresa apresentou uma mesa de corte e outros produtos de menor porte.

O resultado surpreendeu seus dirigentes. Naquele ano, foram comercializadas 21 mesas de corte, desempenho que contribuiu para que a empresa passasse a dedicar atenção ainda maior ao mercado vidreiro.

Com o crescimento, a Agmaq estruturou um parque industrial formado por quatro galpões e desenvolveu, ao longo de sua trajetória, um portfólio com mais de uma centena de máquinas e equipamentos para vidro.

Equipamentos europeus chegam ao mercado brasileiro

Enquanto fabricantes nacionais ampliavam sua presença, empresas internacionais também enxergavam oportunidades no Brasil.

Moreno Magon avançou profissionalmente dentro da Z. Bavelloni até assumir responsabilidades comerciais em diversos países de língua espanhola da América do Sul.

Em 1998, aceitou o desafio de coordenar a implantação de um escritório de vendas da empresa no Brasil.

Naquele período, a comercialização de máquinas importadas apresentava mais dificuldades logísticas e comerciais do que atualmente. Ao mesmo tempo, os fabricantes italianos já disponibilizavam tecnologias sofisticadas para diferentes etapas do processamento do vidro.

Sobre suas primeiras impressões do mercado brasileiro, Magon relatou na época:

“Encontrei uma situação muito aconchegante e cheia de oportunidades.”

Após uma passagem de volta pela Itália, ele retornou posteriormente ao Brasil para participar de outro processo importante: a integração das operações da W do Brasil, Tamglas, Bavelloni e Makivetro em uma única estrutura ligada à Glaston South America.

“Da primeira vez vim por curiosidade, na segunda vim por decisão própria e porque minha esposa é brasileira. Mas não ficaria aqui muito tempo se não gostasse profundamente do Brasil. E o que eu gosto especialmente é dos brasileiros”, afirmou Magon.

Fornos de têmpera e automação do processamento

A Glaston passou a atuar no mercado brasileiro com diferentes equipamentos destinados ao processamento de vidros, com destaque para os fornos de têmpera.

Ao longo do desenvolvimento tecnológico desses sistemas, os equipamentos passaram a incorporar recursos de automação destinados a auxiliar o operador na regulagem e no controle do processo.

A evolução dos sistemas eletrônicos, softwares e sensores tornou possível controlar um número crescente de variáveis relacionadas ao aquecimento, resfriamento e movimentação das chapas.

Essa transformação representa um dos movimentos mais importantes observados no mercado de máquinas para vidro nas últimas décadas: a passagem de equipamentos predominantemente mecânicos para linhas com níveis cada vez maiores de automação e controle digital.

A chegada das máquinas chinesas para vidro

Outro fator que modificou significativamente o mercado brasileiro foi o crescimento da presença de máquinas chinesas para vidro.

Fabricantes e fornecedores tradicionais reagiram de diferentes maneiras ao aumento das importações.

Agostinho Alves, fundador da Agmaq, demonstrava preocupação principalmente com equipamentos comercializados por preços muito inferiores aos praticados no mercado e com questões relacionadas à durabilidade, peças de reposição e assistência técnica.

Na época, comparava essa diferença ao setor automobilístico e alertava os empresários para que não avaliassem uma máquina apenas pela aparência ou pelo preço.

Agostinho também reconhecia que existiam equipamentos chineses de diferentes níveis de qualidade. Sua recomendação era que o empresário analisasse cuidadosamente a procedência da máquina, principalmente quando o preço estivesse muito abaixo das demais alternativas disponíveis.

Moreno Magon apresentava uma interpretação diferente sobre o mesmo fenômeno.

Segundo ele, a chegada de equipamentos de menor investimento poderia ampliar o acesso ao beneficiamento industrial.

“Quem não tinha recursos compra equipamento e desperta interesse no beneficiamento. Em um segundo momento, o caminho natural é buscar equipamentos mais sofisticados”, explicava.

Magon também ressaltava que a China produzia máquinas de diferentes padrões de qualidade e que grandes fabricantes internacionais já mantinham unidades produtivas no país.

Use-Mak: da manutenção à fabricação de máquinas

A história da Use-Mak também se mistura ao desenvolvimento do mercado brasileiro de máquinas para beneficiamento de vidro.

Francisco Martucci, conhecido no setor como “Seu Chico”, teve seus primeiros contatos profissionais com máquinas para vidro trabalhando na Makivetro, onde realizava serviços de manutenção.

Em 1993, após um acordo com Ezio Cabib, iniciou a Use-Mak.

A princípio, a empresa concentrava suas atividades principalmente na manutenção de equipamentos.

A experiência acumulada em campo, entretanto, ajudou Francisco a identificar necessidades recorrentes das beneficiadoras e vidraçarias.

Pouco tempo depois, a Use-Mak começou a desenvolver suas próprias máquinas.

Entre os primeiros equipamentos estavam soluções para a produção de vidros redondos, lapidação de cantos e acabamento de bordas retas.

Com o crescimento da empresa, os filhos César e Paulo também passaram a participar das atividades. Após o falecimento de Francisco, assumiram a administração da Use-Mak.

Máquinas que impulsionaram o crescimento da Use-Mak

Dois produtos tiveram papel importante no desenvolvimento inicial da companhia.

Um deles foi a LA 02, máquina destinada à execução de cantos e ao processamento de vidros redondos.

Outro destaque foi uma lavadora horizontal para vidro.

Um dos diferenciais do equipamento era a utilização de aço inoxidável nas partes que mantinham contato direto com a água. A máquina também utilizava sistema de ar quente, característica que se destacava no mercado naquele período.

De acordo com os relatos da empresa, a linha LA chegou a atingir uma média de aproximadamente 50 máquinas comercializadas por ano.

Já as lavadoras, por serem equipamentos de maior complexidade, apresentavam volumes menores, mas constantes.

Ao longo de sua trajetória, a Use-Mak chegou a contabilizar mais de cinco mil máquinas comercializadas para o mercado vidreiro. Somente as lavadoras ultrapassaram a marca de 800 unidades vendidas.

Importação e adaptação de máquinas ao mercado brasileiro

Em uma fase posterior, a Use-Mak também passou a trabalhar com equipamentos fabricados na China.

A estratégia, entretanto, não consistia apenas em importar e revender as máquinas.

Os equipamentos selecionados eram recebidos no Brasil e passavam por processos de revisão e adaptação antes da comercialização.

Determinados componentes também podiam ser produzidos no próprio centro de usinagem CNC da companhia.

A proposta era combinar o custo e a escala proporcionados pela produção internacional com conhecimento técnico, manutenção, peças e suporte disponíveis no Brasil.

Segundo os administradores da empresa, esse modelo tornou-se uma alternativa para determinadas categorias de equipamentos cuja fabricação integral no País já não apresentava a mesma competitividade econômica.

Lisec e a evolução do processamento de vidro plano

A austríaca Lisec seguiu outro caminho até se tornar um dos nomes internacionais conhecidos pelo mercado brasileiro de máquinas para vidro.

A origem da empresa está relacionada ao próprio processamento de vidros.

Seu fundador, Peter Lisec, desenvolvia equipamentos para melhorar e automatizar as atividades realizadas em sua operação.

As soluções despertaram inicialmente o interesse de empresas próximas e, posteriormente, começaram a ser comercializadas em outras regiões da Áustria e em países vizinhos.

O desenvolvimento das máquinas cresceu até se transformar em uma das principais áreas de atividade da companhia.

No Brasil, a Lisec iniciou sua atuação por meio de representação comercial, enquanto a estrutura responsável pela América Latina estava localizada em outro país.

Lisec Sudamerica é instalada no Brasil

Em 2011, a empresa decidiu centralizar no Brasil uma estrutura destinada ao atendimento do mercado latino-americano.

Foi criada então a Lisec Sudamerica, na região de Campinas, interior paulista.

A unidade foi estruturada para atuar não apenas na comercialização de equipamentos, mas também no suporte aos clientes em diferentes etapas.

Entre os serviços oferecidos estavam instalação, manutenção, treinamento, startup das máquinas, fornecimento de peças de reposição e suporte técnico.

A empresa também ampliava sua atuação na área de softwares destinados ao controle da produção, gerenciamento de pedidos e integração de processos dentro das fábricas de vidro.

Essa evolução indicava outra mudança importante na indústria: as máquinas deixavam progressivamente de trabalhar de maneira isolada e passavam a integrar sistemas mais amplos de gerenciamento da produção.

Máquinas para vidro insulado, corte e usinagem

No Brasil, a Lisec tornou-se especialmente conhecida por suas tecnologias destinadas à fabricação de vidros duplos ou insulados.

Entretanto, seu portfólio abrangia diferentes etapas do beneficiamento do vidro plano.

Entre os equipamentos e sistemas disponibilizados pela companhia estavam:

  • mesas para corte de vidro;
  • centros de usinagem;
  • linhas de acabamento de bordas;
  • equipamentos para laminação;
  • sistemas de autoclave;
  • máquinas de jato de água;
  • linhas para produção de vidro insulado;
  • sistemas de movimentação e armazenamento;
  • softwares para gerenciamento da produção.

A estratégia da companhia era oferecer soluções capazes de atender diferentes etapas da transformação do vidro dentro de uma mesma planta industrial.

Linha Baseline buscou atender empresas em expansão

Outra mudança na estratégia da Lisec para mercados emergentes foi apresentada durante a Glass South America de 2014.

Na ocasião, a empresa lançou ao mercado brasileiro a linha Baseline.

A proposta era disponibilizar equipamentos voltados principalmente para empresas que estavam estruturando uma linha de processamento pela primeira vez ou que buscavam soluções mais básicas do que as encontradas nas linhas de maior nível tecnológico e de automação da companhia.

A iniciativa mostrava como o mercado brasileiro havia se diversificado.

Além das grandes processadoras de vidro, empresas de menor e médio porte também começavam a buscar maior industrialização e automação de seus processos.

Máquinas nacionais, europeias e asiáticas ampliaram as opções

A história das máquinas para vidro no Brasil não pode ser explicada por um único modelo de desenvolvimento.

Fabricantes brasileiros surgiram a partir da identificação direta das necessidades do mercado local.

Empresas europeias trouxeram ao País equipamentos e tecnologias desenvolvidos em mercados que já apresentavam maior nível de industrialização.

Posteriormente, fabricantes asiáticos ampliaram a variedade de máquinas disponíveis e aumentaram a competição em diferentes faixas de investimento.

Ao mesmo tempo, empresas brasileiras passaram a combinar fabricação própria, importação, adaptação de equipamentos, assistência técnica e desenvolvimento de componentes.

O resultado foi a formação de um mercado bastante diversificado.

Automação transforma as fábricas de vidro

Com o avanço tecnológico, os critérios utilizados para escolher uma máquina também se modificaram.

Preço e capacidade de produção continuam relevantes, mas passaram a dividir espaço com outros fatores.

Entre eles estão:

  • nível de automação;
  • produtividade;
  • precisão do processamento;
  • consumo de energia;
  • disponibilidade de peças;
  • assistência técnica;
  • facilidade de manutenção;
  • integração com softwares;
  • rastreabilidade da produção;
  • qualificação dos operadores.

Em linhas industriais mais modernas, softwares podem acompanhar diferentes etapas da produção, controlar pedidos, gerar informações para as máquinas e registrar dados sobre cada chapa processada.

A integração entre equipamentos e sistemas de gestão tornou-se, assim, parte importante da evolução das fábricas de vidro.

A evolução das máquinas acompanha a transformação da indústria vidreira

A trajetória de Agmaq, Glaston, Use-Mak e Lisec mostra diferentes caminhos percorridos pelo mercado brasileiro de máquinas para vidro.

Algumas empresas nasceram a partir da fabricação nacional. Outras chegaram ao País trazendo tecnologias desenvolvidas no exterior. Houve ainda companhias que começaram realizando manutenção e, com o conhecimento adquirido, passaram a desenvolver ou adaptar seus próprios equipamentos.

A chegada de novos fornecedores, a ampliação das importações e o desenvolvimento da automação aumentaram a variedade de soluções disponíveis para beneficiadoras de diferentes portes.

Mesas de corte, lapidadoras, lavadoras, centros de usinagem, linhas de laminação, equipamentos para vidro insulado e fornos de têmpera passaram por profundas transformações tecnológicas.

Mais do que registrar a história de alguns fabricantes e fornecedores, essa evolução ajuda a compreender a própria transformação da indústria brasileira de processamento e beneficiamento de vidros.

Elmo Pires

Jornalista — MTB 20.174
Especializado no setor de vidros e alumínios, no qual atua continuamente desde 1996.

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