Retrofit na Praça Mauá

29 de outubro de 2026

Com 17 mil m² de telas de proteção na fachada, a revitalização do edifício no Centro do Rio de Janeiro prevê novas esquadrias sob medida, preservação arquitetônica e adaptação às atuais exigências de segurança e habitabilidade.

O retrofit na Praça Mauá, no Centro do Rio de Janeiro, avança em um dos edifícios mais emblemáticos da arquitetura brasileira. Inaugurado em 1929, o histórico A Noite passa por uma ampla intervenção que envolve a recuperação de sua fachada e o tratamento individualizado de aproximadamente 800 janelas, a maior parte das quais será substituída por novas esquadrias produzidas sob medida.

A revitalização é conduzida pela incorporadora Azo Inc. e mobiliza diariamente mais de 200 profissionais, entre arquitetos, engenheiros e equipes especializadas. A previsão é que o edifício seja reaberto em 2027, transformado em um empreendimento residencial com 420 estúdios.

Com 23 andares e 102 metros de altura, o A Noite é um dos principais marcos arquitetônicos da Praça Mauá. Sua transformação representa um desafio para a construção civil e, particularmente, para os setores de vidros e esquadrias: modernizar um edifício de quase um século de existência sem comprometer as características que justificam sua preservação histórica.

Retrofit na Praça Mauá envolve cerca de 800 janelas

Entre as principais etapas da intervenção está a recuperação das aberturas da fachada. As aproximadamente 800 janelas estão sendo avaliadas individualmente, considerando as condições de conservação, as exigências de segurança e habitabilidade e as necessidades de manutenção.

Segundo informações divulgadas sobre a obra, a maior parte das esquadrias existentes será substituída. As exceções são as janelas do 22º pavimento e do hall de entrada, que passarão por processos de restauração.

As novas esquadrias serão fabricadas sob medida, reproduzindo as características arquitetônicas originais do edifício.

A solução busca preservar a aparência histórica da fachada e, simultaneamente, permitir que os ambientes internos atendam às necessidades de uma edificação residencial contemporânea.

Para a indústria de vidros, esse tipo de intervenção apresenta desafios específicos. A atualização dos sistemas de fechamento exige compatibilizar dimensões e desenhos históricos com critérios atuais de segurança, estanqueidade, resistência às cargas de vento e desempenho térmico e acústico.

A especificação dos vidros e dos sistemas de vedação ganha particular importância em edifícios altos, especialmente quando localizados em regiões litorâneas e sujeitos à exposição ao vento e à umidade.

Quais vidros podem ser utilizados em um retrofit histórico?

A escolha dos vidros em uma obra de retrofit não depende apenas da aparência desejada. É necessário analisar o uso de cada ambiente, as dimensões das aberturas, a altura de instalação, as condições de exposição e as características das esquadrias.

Dependendo das exigências de cada projeto, podem ser consideradas soluções com vidros laminados de segurança, temperados ou unidades insuladas, quando tecnicamente adequadas.

Vidros com características de controle solar e desempenho acústico também podem contribuir para melhorar o conforto dos ambientes, especialmente em edifícios destinados à moradia.

Entretanto, a adoção dessas soluções precisa ser compatibilizada com a preservação da aparência original da fachada, incluindo transparência, coloração, refletância e características dos caixilhos.

A especificação também deve considerar as normas técnicas aplicáveis, entre elas a ABNT NBR 7199, que estabelece requisitos para aplicações de vidros na construção civil, e a série ABNT NBR 10821, referente às esquadrias externas para edificações.

A atualização da NBR 7199, publicada em 2025, ampliou os critérios de segurança para diversas aplicações. Sua incidência em cada empreendimento deve considerar as disposições de transição e as características do projeto aprovado.

No caso do edifício A Noite, ainda não foram divulgadas informações técnicas suficientes para identificar quais composições de vidro foram especificadas para as novas janelas.

Também não há confirmação pública do fabricante dos vidros, da empresa responsável pelo beneficiamento ou do fornecedor das novas esquadrias.

Fachada histórica recebe 17 mil m² de proteção

Outro destaque do retrofit é a recuperação da fachada, atualmente protegida por aproximadamente 17 mil m² de tela fachadeira.

Essa metragem corresponde ao sistema de proteção utilizado durante os trabalhos de restauração e não à quantidade de vidro que será instalada no edifício.

O processo inclui prospecções para identificar características originais da construção, como acabamentos, cores e elementos arquitetônicos que sofreram alterações ao longo das décadas.

As investigações já permitiram identificar as tonalidades originais da fachada e do teto do térreo, além de uma laje de cubetas que será recuperada.

Como se trata de um edifício tombado, as intervenções de preservação são acompanhadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade (IRPH).

A necessidade de preservar as características históricas torna mais complexa a instalação das novas esquadrias. Diferentemente de uma construção convencional, na qual as aberturas podem ser definidas de acordo com sistemas padronizados, a intervenção exige soluções adaptadas às condições existentes e às diretrizes de preservação.

Projeto arquitetônico reúne especialistas em retrofit e patrimônio histórico

A transformação do edifício A Noite é realizada pela Azo Inc., em parceria com o arquiteto Duda Porto e o especialista em recuperação de patrimônios André Alvarenga.

A construtora Rocontec também identifica o empreendimento em seu portfólio, com a Azo como cliente e Duda Porto como responsável pelo projeto arquitetônico.

O trabalho envolve a adaptação da estrutura existente às exigências da nova ocupação, incluindo instalações, segurança contra incêndio, circulação e compartimentação dos pavimentos.

No conjunto das atividades em andamento estão a recuperação das fachadas, a instalação de contramarcos destinados às novas esquadrias, os reforços no coroamento e no embasamento e a execução de duas novas escadas de incêndio.

Também avançam o fechamento dos apartamentos com sistemas drywall e a implantação das instalações dos pavimentos-tipo.

Esquadrias históricas terão destinação para ensino e pesquisa

Além da restauração de elementos originais, o projeto contempla o aproveitamento de materiais retirados do prédio.

Uma iniciativa anunciada pela Azo, em parceria com o Iphan, prevê a destinação de aproximadamente 2.100 m² de esquadrias de madeira e ferragens históricas que não poderão ser reintegradas à edificação.

Parte desses componentes será encaminhada a instituições de ensino e pesquisa, permitindo sua utilização em estudos sobre arquitetura, técnicas construtivas e preservação de patrimônio.

A medida amplia o alcance cultural do retrofit e contribui para que materiais utilizados há quase um século permaneçam como referências para pesquisadores e futuros profissionais.

Da Rádio Nacional a um novo empreendimento residencial

O edifício A Noite foi sede do jornal que lhe deu o nome e também da histórica Rádio Nacional, uma das instituições mais importantes da comunicação brasileira.

Projetado pelos arquitetos Joseph Gire e Elisário Bahiana, o prédio destacou-se pelo pioneirismo de sua estrutura em concreto armado, associada ao trabalho do engenheiro Emílio Baumgart.

No interior, a recuperação prevê a preservação de vigas de concreto dos antigos estúdios da Rádio Nacional e da escada em espiral que conecta o primeiro ao 22º andar.

A escada possui degraus de mármore, corrimãos de ferro e detalhes com a letra “N”, referência ao jornal A Noite.

O projeto também contará com o Mirante Memória, espaço destinado a apresentar a história do edifício e sua importância para a cidade.

A proposta de revitalização inclui ainda ambientes comerciais e áreas de visitação pública, permitindo que o prédio mantenha uma relação com a Praça Mauá e com o movimento de recuperação urbana do Centro do Rio.

Obra já retirou 11.800 m³ de entulho

A dimensão da intervenção também pode ser observada pela quantidade de materiais removidos.

Até agosto de 2026, haviam sido retirados aproximadamente 11.800 m³ de entulho, dos quais 650 m³ eram materiais recicláveis.

Os trabalhos de demolição, fundações e reforços estruturais do corpo principal avançaram antes da intensificação das etapas de acabamento, instalações e recuperação da fachada.

Além dos desafios construtivos, a obra exige uma operação logística complexa, envolvendo transporte, armazenamento e movimentação de materiais em uma região de intensa circulação urbana.

Retrofit valoriza o setor de vidros e esquadrias

O retrofit do edifício A Noite demonstra como a recuperação de construções históricas pode criar oportunidades para fornecedores de vidros, fabricantes de esquadrias, empresas de beneficiamento e especialistas em instalação.

Mais do que substituir componentes antigos, intervenções desse tipo exigem desenvolver soluções que associem preservação arquitetônica, desempenho e segurança.

No caso da Praça Mauá, a renovação de aproximadamente 800 janelas é uma das etapas mais representativas desse processo.

Com conclusão prevista para 2027, o empreendimento deverá devolver uma função residencial a um marco da arquitetura e da comunicação brasileira, preservando parte importante da paisagem urbana do Rio de Janeiro.

Para a cadeia vidreira, a obra também evidencia a importância da especificação técnica e da fabricação sob medida em projetos nos quais modernizar significa, necessariamente, respeitar o passado.

Ficha técnica do empreendimento

Obra: Retrofit do edifício A Noite

Localização: Praça Mauá, 7, Centro, Rio de Janeiro (RJ)

Incorporadora: Azo Inc.

Projeto arquitetônico de retrofit: Duda Porto

Especialista em recuperação patrimonial: André Alvarenga

Construtora identificada: Rocontec

Intervenção na fachada: aproximadamente 17 mil m² de telas de proteção

Janelas: cerca de 800 unidades submetidas a avaliação, substituição ou restauração

Nova ocupação: 420 estúdios residenciais, conforme divulgação de outubro de 2026

Previsão de conclusão: 2027

Fontes: Azo Inc., Rocontec e ADEMI-RJ

Elmo Pires

Jornalista — MTB 20.174
Especializado no setor de vidros e alumínios, no qual atua continuamente desde 1996.

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